O colorido pensamento espírita

“Acostume-se à diferença” – esta foi a resposta de Jesus diante da surpresa – quase revolta – dos discípulos, quando ele convoca Mateus, o odiado coletor de impostos, a segui-lo. A frase não se encontra nos Evangelhos, mas foi dita pelo Jesus da série “The Chosen” (1), uma adaptação livre de passagens do Antigo e do Novo Testamento. Repito aqui porque acredito que ela poderia facilmente ter sido dita pelo Mestre.

A nossa dificuldade em lidar com a diferença é a expressão mais clara do orgulho que ainda carregamos. É a causa essencial do preconceito, da vaidade, da inveja, da calúnia, das disputas mesquinhas, dos discursos de ódio. Estamos sempre buscando apoio e segurança naquele que é igual, naquele que pensa como nós, naquele que confirma nossas próprias crenças. A diferença, em qualquer nível e em qualquer área de atuação, é sempre uma ameaça.

Esta é a situação, por exemplo, no campo intelectual. Mesmo quando compartilhamos algumas ideias básicas, costumamos valorizar muito mais as diferenças do que é comum. Quase instintivamente, buscamos pontos divergentes, interpretações que se desviam das nossas e declaramos nossa discordância. Naturalmente, isto ocorre também com o estudo espírita.

Quando em um texto anterior defendi a unicidade da Doutrina Espírita (2), diante da multiplicidade de “movimentos espíritas”, minha dúvida subjacente era: qual a causa desta multiplicidade e de que forma cada espírita poderia coloborar para um movimento mais harmônico, ainda que diverso? É óbvio que não há respostas simples para estas questões, mas talvez um passo inicial seja compreender melhor a diversidade dos espíritas, que espelham a própria diversidade humana.

Logo nos primeiros anos de propagação do Espiritismo, Kardec fez uma tentativa de organizar estas ideias. Ele propõe (3) que, mesmo entre os que estão convencidos dos fenômenos espíritas, poderíamos distinguir:

  • espíritas experimentadores: aqueles que acreditam pura e simplesmente nas manifestações, vendo no Espiritismo apenas uma ciência de observação, uma série de fatos mais ou menos curiosos.
  • espíritas imperfeitos: aqueles que compreendem a parte filosófica e admiram a moral derivada desta filosofia, mas não a praticam; apesar do Espiritismo lhes tocar, em nada alteram seus hábitos e comportamentos.
  • espíritas cristãos: aqueles que não se contentam em admirar a moral espírita, mas a praticam e aceitam todas as conseqüências desta moral; estes se esforçam em fazer o bem e tentam vencer suas más inclinações.
  • espíritas exaltados: aqueles que têm uma confiança cega e às vezes infantil no que se refere ao  mundo invisível; aceitam com extrema facilidade e sem verificação muitos absurdos.

Quando observamos atentamente o movimento espírita atual, é fácil ver que esta classificação continua válida.

Neste texto, no entanto, estou interessado em explorar com mais detalhes apenas as diferenças entre os chamados “espíritas cristãos”. Amigas e amigos no movimento espírita e que realmente se enquandram entre aqueles que entendem a moral espírita e estão buscando melhorar-se, às vezes divergem na interpretação ou na aplicação de muitas propostas doutrinárias, engalfinhando-se em querelas, discussões e disputas muito prejudiciais.

Eu acredito, talvez inocentemente, que se entendemos melhor o ponto de vista e a maneira de pensar de cada um, podemos nos tornar um pouco mais tolerantes com quem pensa diferente de nós. Uma compreensão mais clara das motivações e das expectativas do outro, ajuda a melhorar nossas relações pessoais, nos torna mais críticos em relação às nossas próprias ideias e crenças e enriquece nosso próprio pensamento a respeito desta ou daquela questão. Quando nos “acostumamos com a diferença”, não temos mais receio de ser questionado ou de ser criticado.  Não precisamos mais achar que o outro quer nos convencer ou converter às suas ideias. E, melhor, não precisamos tentar fazer isso com as outras pessoas. É um processo muito libertador.

Nesta análise, vou usar uma analogia com o chamado “colorido anímico”. Ao estudar o animismo, relacionado à prática mediúnica, Hermínio Miranda se utiliza das cores para explicar o fenômeno de forma didática (4). A explicação dele é mais elaborada, mas vou resumir assim: se o pensamento do Espírito comunicante é “azul” e o pensamento do médium é “amarelo”, o pensamento resultante na comunicação é “verde” (a combinação de azul e amarelo). Muito simples não? No entanto, podemos dizer que a mesma coisa se aplica a qualquer processo de “reflexão mental” (5). Quando leio um livro, o pensamento expresso pelo autor “se mistura” com os meus próprios pensamentos, de tal maneira que o resultado não é nem o pensamento puro do autor, nem o meu pensamento puro. O mesmo vale para palestras, filmes, conversas, etc.

Vamos estender a analogia para o estudo da Doutrina Espírita, usando a analogia com um prisma. Um prisma, como sabemos, decompõe a luz branca em diversas cores.

Sem entrar em detalhes da explicação do fenômeno físico, imagine que a Doutrina Espírita é a luz branca. Ao ser estudada, por mim e por você, ela é decomposta em várias cores. Cada pergunta de “O Livro dos Espíritos”, por exemplo, carrega consigo várias cores (ouseja, interpretações diferentes). Qual cor eu vou ver? Qual cor você vai ver? Naturalmente, isto depende de vários fatores internos de cada um. Nesta analogia, nenhum de nós estaria habilitado a ver todas as cores simultaneamente.

Vou estender a analogia um pouco mais. Ao invés das tradicionais sete cores do arco-íris, vamos usar dez cores, para representar dez pontos de vistas diferentes, que cada um de nós pode ter. É como se cada estudante pudesse enxergar mais claramente apenas uma cor, embora seja capaz de perceber nuances de outras (poucas) cores. Por exemplo, considere estas dez cores:

É facil var (acho) que são dez cores diferentes, embora algumas sejam bem parecidas com outras (e outras sejam muito diferentes). Qual seria sua cor?

Sem querer abusar da sua paciência, vou fazer uma última extensão à analogia. Mesmo quando temos uma cor predileta, esta cor pode se apresenta em uma míriade de tons diferentes. Se usarmos o vermelho, por exemplo:

Ou seja, mesmo para uma forma específica de interpretação e aplicação de temas doutrinários, podemos ter muita variação. São estas variações que nos levam a gostar mais (ou menos) deste ou daquele autor, de concordar mais (ou menos) com este ou aquele expositor, de nos afinizarmos mais (ou menos) com este ou aquele companheiro espírita, de participar deste ou daquele grupo de estudo.

Podemos entender que “elegemos” nossas afinidades, sem ter de achar que as dos outros estão erradas só porque são diferentes da nossa. É um grande passo.

Mas afinal, que dez cores são estas, aplicada ao pensamento espírita? Vou fazer um tentativa rápida num rascunho, com ideias bem resumidas. Cada “cor” representa o foco que adotamos ao estudar o Espiritismo (e que pode ser estendido a várias àreas de nossa vida, já que muitas vezes representa nossa maneira de “ver o mundo”). Verifique se você “se encontra” em alguma:

O ser humano

O foco está no humano. O Espírito é encarado como alma, ou seja, um Espírito encarnado. Interessam aqui a condição humana, a dignidade, as aspirações, as vivências cotidianas, as dores, as realizações. Interessa o mundo vivido. O presente adquire uma importância maior que o passado ou o futuro. A Lei de Causa e Efeito é reconhecida, mas importa mais o que podemos fazer aqui e agora.

O  ideal

O foco está nas ideias. O Espírito é visto como portador de potências internas a serem realizadas através do processo evolutivo. Interessam aqui conceitos como o Bem, a Beleza, a Justiça, o Amor, a Vontade. O importante é a realização e a vivência destes conceitos .

O psiquismo

O foco está na questão psicológica, interna. O Espírito é visto como um “Eu” a se desenvolver ao longo do tempo e das experiências. Interessam aqui o processo de autoconhecimento, a consciência, a mente, o pensamento, os sentimentos, as emoções, o “eu” no mundo, as relações pessoais consigo mesmo, com os outros, com Deus.

O social

O foco está nas relações sociais. O Espírito é visto como um ser social, membro de uma sociedade, de uma comunidade, de uma coletividade. Interessam aqui as relações sociais, as conquistas coletivas, o exercício político, os processos de ação social, a atuação ostensiva no mundo.

O conhecimento

O foco está no intelecto. O Espírito é encarado sob a perspectiva do “ser inteligente da criação”. Viver é conhecer. Interessam aqui os processos cognitivos, mentais, a abordagem científica, a relação do Espiritismo com o conhecimento humano, a criação de modelos para entender o mundo e a realidade espiritual.

A mística

O foco está na transcedência. O Espírito é encarado como uma entidade cósmica, integrada à criação como um todo. Interessam aqui a religiosidade, a espiritualidade, as ideias sobre Deus, os processos de sublimação espiritual, o sagrado, a revelação, o que está acima do humano.

O material

O foco está na materialidade. O Espírito é encarado como integrado ao mundo físico e à natureza. Interessam aqui a corporificação, a interação entre espírito e matéria, a evolução anímica, os mecanismos de saúde e doença, os processos da reencarnação e da desencarnação.

O fenômeno

O foco está na experiência. O Espírito é encarado como a fonte de fenômenos físicos. Interessam aqui a mediunidade em suas diversas expressões, o contato com os Espíritos, as obsessões, a investigação do perispírito, a física espiritual, as experiências anímicas.

A moral

O foco está no comportamento. O Espírito é encarado basicamente como um ser moral. Interessam aqui o estudo evangélico, o entendimento do bem e do mal, a busca pelo proceder correto, a superação dos vícios.

A doutrina

O foco está sistema doutrinário. O Espírito é visto como um elemento distinto da criação, imerso em um processo evolutivo. Interessam aqui os estudos de obras doutrinárias, a criação de definições, a delimitação do que é o Espiritismo, a divulgação das ideias e princípios espíritas, a defesa da doutrina diante de outras correntes de pensamento.

Como disse antes, esta descrição é um rascunho muito pobre. A intenção é apenas mostrar a forma extraordinária como a Doutrina Espírita se apresenta e a amplitude que os princípios básicos podem alcançar, quando são desenvolvidos. A esperança é que o entendimento destas diferenças de pensamento possam nos tornar mais compreensivos, mais fraternos, mais conscientes e mais humildes nos nossos estudos e na convivência com aqueles que, como nós, também estão ainda aprendendo.

Referências

  1. The Chosen. https://studios.vidangel.com/the-chosen/
  2. Espiritismos.
    https://ematos.net/2020/05/16/espiritismos/
  3. O Livro dos Médiuns. Allan Kardec. 1ª. Parte. Item 31.
  4. Diversidade dos Carismas. Hermínio Miranda. Volume II – cap. 1
  5. Pensamento e Vida. Emmanuel/Chico Xavier. Cap.2

Fotos

(*) Lápis. Fonte: Miguel Ángel Padriñán Alba
(**) Prisma: Fonte: Dobromir Hristov

Comments

  1. Alexander vallo

    Um estudo muito rico através de uma ideia “simples”. Fiquei pensando, apesar de muitos de nós termos “preferências” diferentes quanto as cores, continuamos todos tendo em determinadas pessoas, como por exemplo expositores e escritores, um interesse maior. Poderíamos pensar que tais pessoas têm um espectro de luz mais abrangente que nossas individualidades? E Jesus, além de nossas capacidades? Indo para o infravermelho e o ultravioleta? Por isso consegue abraçar toda a humanidade? E aqueles que ainda não o veem? Obrigado pelo texto e reflexões.

  2. Ricardo Baesso

    Belo texto (inclusive no aspecto gráfico)! Parabéns.
    Kardec escreveu algures que o Espiritismo veio para os “insatisfeitos”. Os que se acomodam satisfatoriamente nas crenças tradicionais, melhor seria que lá ficassem. Penso que na personalidade dos insatisfeitos somam-se alguns traços, como espírito crítico, sagacidade, e gosto pelas controvérsias. Quando elas se dão de forma saudável, que bom! Desenvolvem os recursos dialógicos e ampliam o conhecimento. Ruim quando promovem discórdias e ressentimentos. Aprender a falar sem ofender e ouvir sem sentir-se ofendido é hábito que precisamos desenvolver.
    Ricardo Baesso

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